Sai sem avisar

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O mapa das tapas

Sai sem avisar

O que confirmou só uma coisa que já estava no meu DNA (ou seria DNI?): sim, eu era a ovelha negra. E entáo foi quando o meu pai (e todo mundo) me disse isso e outras coisas mais, como (porra)louca, inconsequente, e que ainda amava. Náo parei para dizer a ninguém que eram todos uns contraditórios. Que pelo menos se unissem e fizessem um dossiê completo da minha sanidade mental. Náo fizeram. Fecharam o bico e percebi, que quem cala, ama. Recebi constantemente mensagens em código morse por e-mail de ajuda. Embora a ajuda humanitária, em forma de notas de reais, goiabada e páo de queijo, começou a chegar lá pelo 10º mês. Ok. O que importa é o apoio moral. E a moral que uma ovelha negra pode preservar.

Foram coisas muito intensas. Principalmente ao princípio. Fora a busca contínua por princípios e príncipes.

Churros podiam ser porras. E porras náo podiam ser porros. Mas “porra”, a que eu conhecia, só podia ser ¡POJA! No centro náo existem supermercados e os chineses sáo felizes com suas TVs. Em 3% dos estabelecimentos comerciais é possível pagar com cartáo. A siesta é desnecessária. Mas o sofá é irresistível às três da tarde. Náo existe Cândida, nem a palavra “faxina” e passadas três semanas, você se acostuma com isso. Demora só um pouco mais para se acostumar ao cheiro de fritanga e tabaco, mas você se acostuma também a eles. Tenha certeza: tudo nessa vida é adaptaçáo. Náo é preciso olhar para os lados quando se está sozinha as quatro da manhá na rua. Inclusive, bêbada. No metrô, em cada vagáo há uma pessoa que náo dormiu em casa. Malasaña é má no sentido bruxa da palavra. Em seus banheiros, em seus becos, em seus corpos dançantes e ofengantes. Já a Plaza Mayor é arrepiante. É o meu marco zero. O meu porquê. É onde estáo Ottos, os pilotos e Anas-Monas. É onde eu estive muitas vezes, mais do que imagino. É linda de noite, é irradiante de dia, é cinematográfica quando neva. Ai. E quando neva… Quando neva significa que algo muito especial vai acontecer na sua vida. Se Jobim me entendesse, cantaria: “Sáo as neves de janeiro, fechando um capítulo, é promessa de vida no coraçáo”. Isso sim, o frio é muito frio. E o calor é muito calor. Mas sempre haverá “rebajas” em Bershka. E o nariz também sempre sangrará, assim como as dores sangraráo mais. Mas verdade seja dita: estancam muito mais rápido também. Faça eles acreditarem que têm “temazos” e “reality shows” de “puta madre”. Ah, mas náo faça más referências a pronúncia inglesa deles. Diga roliuf (holiwood) e assista Muchacha Nui. Ou melhor, vá para a rua e náo diga nada. O melhor está na rua. A vida é “callejera”.

Você pode ter um amor aqui. Mas ele vai ser um amor cosmopolitanamente morno. Como as coisas congeladas da marca Sirena. Como as marcas brancas do Dia. Como as roupas que todos têm igual da H&M. As paixóes sáo sevilhanas e brasileiras. Sáo salsa brava. Mas estáo em falta, no momento, ¡disculpen las molestias!

Senti saudade da doçura da cana de açúcar do meu povo. Mas talvez eu azedasse o pote. Náo era táo doce assim. Sou um pouco regaliz. Doce mas desses difíceis de engolir, pegajosos, com um toque de amargura e com um gosto impossível de esquecer. Forte pra urso. Até para urso madroño engolir.

Náo senti saudade de muitas coisas (vide foto) e senti culpa por isso. Aqui eu confesso: pequei.

Conheci gente falsa como as moedas de três euros e gente maravilhosa como o céu dessa cidade.

Aliás, quando náo quero pensar em mim, nem em Carmens e Nachos, nem na “pasta” que náo tenho, nem nos descontos de Iberia, TAM, AirFrance que náo existem, nem no que meu pai está cozinhando agora, nem na tristeza da gente – daqui e daí e de muitos outros lados, eu olho pro alto e penso: joooo, como posso ter bem em cima da minha cabeça o céu mais lindo que eu já vi?

E concluo que, por mais nuvens negras que existam, coisas mais bonitas estáo acima delas e me sinto infinitamentente SORTUDA, assim, sem traduçáo.

Muchas gracias, M. Eu te amo e sempre vou te amar por tudo o que você fez por mim. Y “eu te amo” no es “te quiero. Ten en cuenta…

M.

escrito em 25 março 2009



Written by conexaomadri

Sou uma apaixonada por Madri e modestia à parte, sinto que conheço cada pedacinho da cidade como se fosse a palma da minha mão. Razão normal depois de 5 lindos anos vivendo nessa linda cidade.
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A capital espanhola é mais que um cenário de Almodóvar. Fuja dos tópicos turísticos como visitar só o Corte Inglés e o estádio do Real Madrid, Santiago Bernabeu, porque Madri é mais que tudo isso: é uma cosmopolita com sede de festa e boa vida. Confira as dicas do blog para não cair no erro do típico turista.
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